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REVISTA DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS
há local onde apareça sem lá não irmos. Ava-
liamos a atividade do mosquito, quer em ter-
mos de ovos quer na quantidade de adultos.
Esta monitorização faz-me saber exactamente
qual o risco de ocorrência», explica Ana Clara,
sentada no gabinete e com uns mapas atrás.
São estes mapas que diariamente mostram a
evolução do mosquito na ilha, conforme os
dados introduzidos pelos técnicos ambientais,
como Bela Viveiros.
Está tranquila. Mas não o suficiente para cru-
zar os braços. Sabe que, mais mês menos mês,
mais ano menos ano, aparecerá um insecto
infectado com o vírus. Sabe também que se
não baixar os braços poderá travar o desen-
rolar de uma grande epidemia, um esforço
para o qual estão preparados laboratórios,
centros de saúde e o hospital da Região Au-
tónoma da Madeira.
Ainda assim, o arquipélago está em alerta
máximo. E mesmo com todas as medidas de
prevenção acionadas, o Zika pode vir a ser
mesmo uma realidade.
ALERTAS E SUSPEITAS
Durante 2016 foram notificados três casos
suspeitos de infeção pelo Zika: dois são ca-
sos importados. Um dos doentes infetou-se
no Brasil, outro na Venezuela. E uma outra
situação de uma mulher que, muito prova-
velmente, terá sido infetada pelo marido que
tinha viajado para o Brasil.
«Tivemos até um caso de uma eventual trans-
missão sexual. Um senhor que veio do Brasil
e infetou a parceira. Mas estes casos nunca se
conseguem comprovar, pois é preciso encontrar
o vírus Zika no esperma, e isso é difícil», diz
Graça Andrade, do laboratório do Hospital
Nélio Mendonça. Este caso de transmissão
sexual acabou por ser notificado à Organiza-
ção Mundial de Saúde, OMS, como provável.
Apesar de a doença ser conhecida há muitos
anos, é recente a certeza de que o vírus Zika
também se transmite através do sémen.
Só no ano passado, o Zika infetou entre 3 a 4
milhões de pessoas em 23 países. Mas, de uma
maneira geral, a infeção por este vírus é mais
benévola do que a do Dengue. A maioria dos
infetados pode até não ter sintomas, ou tê-los
muito leves. O grande risco ocorre quando
as grávidas são infetadas. O vírus é capaz
de ultrapassar a placenta e provocar doença
neurológica nos bebes. No Brasil, só em 2016,
nasceram 1400 crianças com microcefalia.
O VIAJANTE, QUE ATÉ HOJE NINGUÉM CONSEGUIU IDENTIFICAR, TERÁ CHEGADO
COM UMA CARGA VIRAL SUFICIENTE PARA TRANSMITIR O VÍRUS: «DEVE TER SIDO
PICADO POR UM MOSQUITO QUE INICIOU DEPOIS A CADEIA DE TRANSMISSÃO,
PICANDO UMA OU MAIS PESSOAS QUE NUNCA TINHAM SAÍDO DAQUI»,
Outros ângulos
Mesmo com toda a prevenção, o Zika pode registar-se na Madeira
O ovo transforma-se em
pupa, espécie de embrião,
e depois em insecto.