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REVISTA DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS
DO DENGUE AO ZIKA: COMO
Com uma simples picada, provocou surtos
e epidemias em muitas regiões do globo e
muitas mortes. São vários os países em África,
América Latina e Ásia onde o Aedes Aegypti
já fez vítimas.
Na Europa este insecto existe apenas na Ge-
órgia e na ilha da Madeira onde chegou há
11 anos e esteve na origem de um surto de
Dengue.
«Elas é que são as transmissoras. Só elas é que
picam os seres humanos. Precisam do sangue
para conseguir fazer a maturação dos ovos.
Eles [os machos] só se alimentam de vege-
tais». Bela Viveiros quase não retira os olhos
do óculo do microscópio. Mas mesmo à vis-
ta desarmada consegue identificar o Aedes
facilmente. É técnica e desde 2005 trabalha
com estes insectos. Todos os dias.
Passa as tardes, quase todas, no Laboratório
de Saúde Pública Câmara Pestana, no Fun-
chal, a identificar insectos que vai recolhen-
do pela ilha.
Com ela são várias as equipas ambientais que
trabalham no Programa de Prevenção con-
tra o Zika na Madeira. Um programa que a
Organização Mundial de Saúde já elogiou
publicamente e que está a ser replicado em
outros países da Europa, como a Geórgia, onde
o Aedes também se instalou, apesar de não
ter ainda surgido nenhum surto, e em Malta,
onde se teme que o insecto possa aparecer.
ILHA ARMADILHADA
Por toda a ilha existem mais de 3200 armadi-
lhas. Umas para ovos, outras contra insectos.
As que se destinam aos insectos são uma es-
pécie de balde com tampa e um orifício no
centro desta. No recipiente está um produto,
o tratante, que simula o odor da respiração
humana; no orifício da tampa do balde é co-
locado um sistema com uma ventoinha eléc-
trica. Quando os insectos se aproximam do
balde atraídos pelo cheiro, são sugados pela
ventoinha para o interior.
Há destas armadilhas nas zonas identificadas
como de maior risco. Todas têm vegetação e
densidade urbanística. São também as mais
quentes e húmidas, sem grandes amplitudes
térmicas: é o caso do Funchal, de Câmara de
Lobos ou da Madalena do Mar, todas locali-
zadas na costa sul da ilha da Madeira.
O mosquito gosta de água doce, parada, em
pequenas quantidades. E não se aproxima
muito do mar, já que a água salgada o mata.
Contudo, foi pelo mar que, muito provavel-
mente, o mosquito chegou à ilha, em 2005. A
hipótese mais plausível é que tenha entrado
pelo porto de mercadorias do Caniçal (ponta
leste da Madeira).
Se chegou em ovo ou em larva ninguém sabe:
talvez num qualquer vasilhame com água. Cer-
to é que foi pouco antes do verão, já que em
finais de julho chegaram as primeiras queixas
de mosquitos diferentes: «Fomos percebendo
que as pessoas que moravam numa determi-
nada zona tinham naturalmente pequenas
e grandes máculas com muitas bolhas nos
membros inferiores, sem grande comichão.
E associavam a isso a picada de um mosquito
muito pequenino, que era diferente e preto»,
explica Ana Clara Silva, dirigente do Institu-
to de Administração da Saúde (IASaúde) da
Região Autónoma.
Foi na freguesia de Santa Luzia, no Funchal,
que o mosquito apareceu primeiro.
Um exemplar foi caçado e enviado para o
Museu de História Natural da Madeira que
o identificou com a ajuda do Instituto de
Higiene e Medicina Tropical: era mesmo o
Aedes Aegypti, que até então vivia apenas na
Ásia, África, América Central e do Sul. Nos
mosquitos recolhidos na altura verificou-se
que nenhum deles estava ainda infectado, o
que acabou por acontecer sete anos depois,
em 2012.
«Acredito é que chegou cá um viajante infe-
tado. Admito que possa ter vindo da Vene-
zuela», explica Ana Clara.
O viajante, que até hoje ninguém conseguiu
identificar, terá chegado com uma carga vi-
ral suficiente para transmitir o vírus: «Deve
ter sido picado por um mosquito que iniciou
depois a cadeia de transmissão, picando uma
ou mais pessoas que nunca tinham saído da-
Dulce Salzedas, jornalista convidada, SIC
É um dos mais pequenos insectos do mundo: mede pouco mais de meio centímetro.
À vista desarmada, parece um mosquito, como tantos outros. Só ao microscópio são
visíveis as manchas brancas e uma faixa escura que tem no dorso. É esta faixa, uma
espécie de lira, que o distingue de todos os outros mosquitos. A lira e o facto de ser
a fêmea do Aedes Aegypti - assim é o nome científico deste pequeno insecto - que
transmite os vírus do Dengue, da Chincugunia e do Zika.
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