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Entrevista
REVISTA DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS
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de daremmedicamentos inovadores aos doen-
tes. Isso ainda continua?
Continua. OGoverno tem anunciado ummaior
pacote de aprovação de medicamentos inovado-
res e não sei em que é que isso se traduzirá em
termos concretos. Há preocupação doMinistério
da Saúde em reduzir as autorizações excecionais.
Se isso for feito de forma positiva, é bem-vindo.
Ou seja, é positivo se se acelerar a decisão de
aprovação, ou não, de medicamentos, pois evita-
rá o hiato temporal que faz os médicos pedirem
autorizações especiais de medicamentos novos
para os seus doentes.
Os médicos sentem que não podem dar ao
doente tudo o que pretendem por questões
financeiras nos hospitais?
Sim, essa preocupação existe. Sabemos que a Saúde
não pode ter orçamento infinito, que temde haver
regras e uma capacidade de diálogo forte a nível
europeu com a indústria farmacêutica. Era pre-
ciso que todos os países europeus estivessem em
sintonia, mas a verdade é que o nível de desenvol-
vimento da indústria farmacêutica nos diferentes
países é distinto. Há países que beneficiam com
preços caros porque a indústria farmacêutica está
lá sediada e lá são pagos os impostos. Nos EUA,
uma grande fonte de inovação terapêutica na saúde,
estão proibidas as restrições aos preços dos medi-
camentos, o que é absurdo e tem consequências
na Europa. Temde haver uma política europeia de
definição dos preços dosmedicamentos. A Indús-
tria Farmacêutica é tendencialmentemonopolista
porque quando regista ummedicamento tem o
monopólio dessemedicamento. E os monopólios
são sempre negativos. Por isso tem de haver, por
parte da sociedade, umpapel diferente; o Estado
temde investir tambémeminvestigação. Entrega-se
a grande fatia da investigação emsaúde à indústria
farmacêutica e depois queixamo-nos dos preços?
Os Estados que assumam o seu papel, invistam
em investigação, registem novos medicamentos
e vendam a preços mais baratos. Não podem é
entregar monopólios à indústria e depois virem
queixar-se dos preços e do mercado.
Como vê a Ordem daqui a dez anos?
Não sei, não sou cartomante nem astrólogo [ri-
sos]. A sociedade evolui tanto que não sei…
Todas as organizações serão mais relevantes e
a Ordem, tendo poderes delegados pelo Estado
e sendo uma organização da própria sociedade,
tem obrigação de intervenção de cidadania nas
políticas de saúde. Se nós, sociedade, não fizermos
política, a política subjuga-nos. No Juramento de
das Ordens, no sentido de dar voz aos profissio-
nais, é cada vez mais importante.
Neste momento há muitas pressões?
Sim, para os profissionais não falarem.
Com o objetivo de não denunciarem o que
está mal?
Os governos têm sempre a primeira preocupação
de transmitir a ideia de que se está a fazer, mais
do que em fazer realmente. Têm preocupação
de marketing, de passar a ideia de que está tudo
bem e de que está a ser feito o que é preciso. Ora,
nós sabemos que a verdade real é quase sempre
diferente, para pior, da versão oficial. Se os pro-
fissionais puderem apontar o dedo a situações
objetivas que demonstrem que, afinal, isso não é
assim, é claro que causa incómodo ao Governo.
Os profissionais têmdenunciado a dificuldade
Hipócrates costumo dar aos jovens essa noção
de que devem ter intervenção política. A saúde
é definida pela política.
Gostava de ser ministro da Saúde?
Não. Acho que deve ser um lugar extraordina-
riamente difícil. Em tempos de vacas gordas é
fácil ser-se ministro; em tempo de vacas magras,
é um desafio tremendo.
Foi difícil ser bastonário?
Mais do que eu pensava. Caiu-nos a crise em
cima, depois de ser eleito bastonário.
Porque não se recandidatou?
Tenho uma ideia visceral da democracia de que
ninguém se deve tentar perpetuar no poder. Acho
que podemos abraçar os projetos com espírito
de missão, mas não, perpetuarmo-nos neles. Por
isso fui contra a ideia de os mandatos passarem
para quatro anos.
Seis anos é tempo aceitável, até porque nesse
período o conhecimento científico mais do que
duplica, o que para ummédico afastado da clínica
e do estudo regular temum impacto significativo.
A Ordem que deixa é muito diferente da que
conheceu quando aqui chegou?
Eu deixo uns estatutos diferentes que tornam a
Ordemmais participada. São um passo no bom
caminho, mas, para mim, ainda não é suficiente.
Por constrangimentos estatutários, a Ordemnão
funciona adequadamente. Está quadripartida: três
secções regionais e o bastonário, e perde-se de-
masiado tempo emquestões internas. Precisamos
de uma revisão de estatutos emque se acabe com
as secções regionais (permitindo maior autono-
mia e intervenção às sub-regiões). Os médicos
devem eleger uma equipa que trabalhe com o
bastonário. Um bastonário sem equipa de traba-
lho fica tremendamente limitado, não obstante
a colaboração das secções regionais.
É uma medida que vou propor quando sair. En-
quanto estava na Ordem não quis colocar estas
questões, pois poderiam acusar-me de pretender
ser ditador, o que prejudicaria uma alteração que
considero essencial.
Sai cansado?
Não saio cansado nem desiludido. Sei até que
vou ter saudades.
Que conselho deixa aqui para o seu sucessor?
Que faça mais e melhor do que aquilo que eu fiz,
pois será bom para todos.
MÉDICOS TÊMNOVO
BASTONÁRIO
Como novo bastonário da Ordem dos Médicos,
Miguel Guimarães, de 55 anos de idade, sucede
ao nosso entrevistado José Manuel Silva, tendo
tomado posse a 8 de Fevereiro. O médico
urologista do Hospital de Santa Luzia, em Viana
do Castelo, e mais tarde do Hospital de São
João, que foi dirigente do Conselho Regional
do Norte nos últimos seis anos e, antes disso,
desde 2008, seu vice-presidente, foi eleito,
para o próximo triénio, em janeiro, e à primeira
volta, obtendo mais de 70 por cento dos votos
expressos pelos seus pares.
A cerimónia da posse teve lugar na Academia
das Ciências de Lisboa e contou com a presença
do Presidente da República, Marcelo Rebelo de
Sousa, do ministro da Saúde, Adalberto Campos
Fernandes, e dos bastonários das restantes
ordens profissionais.
José Miguel Ribeiro de Castro Guimarães
nasceu no Porto e estudou Medicina, entre 1980
e 1987, na Universidade daquela cidade, tendo
completado o internato no Hospital de São João
e obtido o título de especialista em 1997.
NOS EUA, (...) ESTÃO PROIBIDAS AS RESTRIÇÕES AOS
PREÇOS DOS MEDICAMENTOS, O QUE É ABSURDO E
TEM CONSEQUÊNCIAS NA EUROPA. TEM DE HAVER
UMA POLÍTICA EUROPEIA DE DEFINIÇÃO DOS PREÇOS
D.R.
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