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REVISTA DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS
Quando foi omomento de mudança que per-
mitiu a união de várias profissões, nomeada-
mente médicos e farmacêuticos?
Foi uma evolução natural das pessoas, das cir-
cunstâncias...
Acha que o seu sucessor vai continuar a co-
laboração?
As pessoas que se candidataram são pessoas inte-
ligentes e perceberão facilmente que é através do
diálogo que se resolve a maioria dos problemas.
Nãome preocupa a minha sucessão porque julgo
que não haverá inflexão na filosofia e na forma
de estar da Ordem.
Quais serão, no futuro, os desafios de uma Or-
dem, nomeadamente dos Médicos?
É o desafio de acompanhar e lidar com as mu-
danças na sociedade. A OM tem 80 anos e não
podia manter a postura de há 80 anos. A socie-
dade evoluiu e as Ordens têm de saber evoluir
rapidamente, em paralelo e de forma liderante.
E foi por isso que fizemos um comunicado em
que apelámos a jantares de natal sem indústria
farmacêutica. Se calhar, a sociedade deixou de
perceber e de aceitar como normal aquilo que o
era há dez anos. Temos de ser capazes de acom-
panhar essa evolução, que me parece saudável,
de cada vez maior rigor, maior transparência.
Porque decidiram fazer esse comunicado sobre
jantares de natal sem indústria farmacêutica?
Para dar um sinal de que os médicos devem li-
derar uma separação total de potenciais fontes
de conflito ou de menor credibilidade na opinião
o são no privado e no social. Nempodemos che-
gar lá, abrir a porta e entrar para ver se estão a ser
cumpridas, porque não temos base legal para isso.
OMinistério tem vontade de dar às Ordens a
capacidade para puderem fazer auditorias, alte-
rando a legislação.
E entretanto, emnovembro, as Ordens dos médi-
cos, dos farmacêuticos e dos enfermeiros assinaram
umprotocolo coma Inspeção Geral das Ativida-
des emSaúde (IGAS) e a Entidade Reguladora da
Saúde (ERS) para se fazeremauditorias conjuntas.
As Ordens vão passar a acompanhar os ins-
petores?
Vão acompanhar as auditorias para defender a
qualidade e verificar se as regras estão a ser res-
peitadas, sempre que for considerado pertinente.
Ao mesmo tempo, e a IGAS e a ERS podem re-
correr aos nossos colégios para fundamentarem
as decisões nos relatórios.
E quando essa cooperação vai começar no ter-
reno?
Será agora em 2017.
Estão previstos mais projetos em conjunto en-
tre as Ordens?
Há umprojeto que está a ser analisado que é o do
Provedor do Doente e da Saúde. É uma questão
que está ainda emdiscussão comas Ordens e as-
sociações de doentes.
E embora cada Ordem se considere, na sua área,
como provedor do doente, estamos a analisar a
possibilidade de criar uma figura que emane da
sociedade para ser a voz dos doentes.
Então as Ordens têm atualmente reuniões re-
gulares?
Sim, todos osmeses, muitas vezes informalmente.
E que ganhos para as pessoas podem resultar
desta cooperação?
Certamente resultarão ganhos para a saúde.
pública, entre médicos e indústria farmacêutica.
Qualquer cidadão não ia achar normal que o
jantar de um determinado serviço médico fosse
pago pelo laboratório x ou y.
Hámuitos serviços emque os jantares de natal
são oferecidos pela indústria?
Não sabemos se há muitos ou não. O que nos
preocupa é poder haver um que seja ou que isso
constitua a regra. Queremos que a sociedade per-
ceba que são os médicos que estão a liderar esse
processo porque querem que a sua imagem seja
credível e esteja acima de toda a dúvida.
Era costume falar-semais dos casos de alegadas
ligações perigosas entremédicos e laboratórios.
O que mudou?
Acho que procurámos mudar isso. Daí o novo
protocolo que foi assinado entre a Ordem dos
Médicos, a Associação Portuguesa da Indústria
Farmacêutica (Apifarma) e a Associação dos
Médicos Portugueses da Indústria Farmacêu-
tica (AMPIF) que considera que não é legítimo
qualquer financiamento de qualquer atividade
que não seja de carácter técnico-científico. E,
claro que um jantar de natal não é cientifico, é
festivo, e não deve ter comparticipação da indús-
tria farmacêutica.
Há menos processos de inquéritos abertos?
Menos denúncias?
Não sei. Sei que há uma tendência crescente de
queixas emgeral mas essa tendência acompanha o
maior sentido de responsabilidade e de cidadania
ou a consciência de direitos, e destes faz parte a
reclamação. Toda a reclamação é uma chamada
de atenção para algo que pode ser melhorado.
Mas não nos parece que tenha havido aumento
da gravidade das reclamações. Pelo contrário,
pois a qualidade da medicina portuguesa é boa
e casos graves são em número reduzido. Prati-
cam-se mais de 75 milhões de atos médicos por
ano e, e se virmos as queixas consistentes, sérias,
reparamos que a sua incidência é pequeníssima.
O código de ética da saúde funciona?
Funciona como lei da rolha. Não acrescenta nada
ao código deontológico da OM. Pelo contrário,
fica aquém do que são as regras deontológicas a
que a classe já se auto impõe. A grande preocu-
pação desse código doMinistério da Saúde, pelo
menos em termos médicos, foi tentar evitar que
os profissionais falassem. E tenho a perceção de
que, de certa forma, isso foi conseguido. E, por
isso mesmo, porque há medo e pressões, o papel
JORGE ALVES
PRECISAMOS DE UMA REVISÃO DE
ESTATUTOS EM QUE SE ACABE COM AS
SECÇÕES REGIO­NAIS (…) É UMA MEDIDA
QUE VOU PROPOR QUANDO SAIR
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