Entrevista
REVISTA DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS
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que felizmente está completamente ultrapassada.
A crispação foi substituída pelo respeito e pela
vontade de trabalharmos em conjunto, pois todos
fazemos parte da equipa de Saúde.
Considero que este termo e ideia de equipa de
Saúde deixou de ser retórica para estar em cima
da mesa e para condicionar, no bom sentido, ou
melhor: para moderar o diálogo entre profissões
dentro de um verdadeiro espírito de equipa. To-
dos somos essenciais, todos somos dignos, todos
somos necessários para que a Saúde funcione.
Essa ideia não se pode tornar num frentismo
na Saúde. Não pode parecer que se estão a
unir para defenderemmelhor apenas os vos-
sos interesses?
Não. Para isso teria de demonstrar-se que está-
vamos a agir em prol dos nossos interesses e não
em prol do interesse dos c-idadãos. É evidente
que, se todas as profissões da saúde estiverem
unidas, se pode falar de frentismo, mas pode
ser frentismo positivo ou negativo. Se for em
defesa da qualidade, da cooperação das equipas
de saúde e da prestação de cuidados de saúde às
pessoas de acordo como estado da arte, esse tipo
de frentismo é de saudar. E é necessário.
Mas se é tão positivo por que é que durante
tanto tempo os médicos e os farmacêuticos não
se entendiam e tinhamaté uma relação tensa?
A evolução da sociedade fez com que todos
compreendessem que ganhamos mais em estar
unidos do que separados. Houve a perceção e a
consciência disso e temhavido, por isso, reuniões
regulares das Ordens profissionais…
Quem participa nessas reuniões?
As várias Ordens. Em dezembro fomos em con-
junto ao Presidente da República apresentar as
nossas preocupações e temos tido iniciativas
em conjunto.
Quem foi ao Presidente da República?
A Ordem dos Farmacêuticos, a OM, a Ordem
dos Enfermeiros, a Ordem dos Nutricionistas,
a Ordem dos Médicos Dentistas e a Ordem dos
Psicólogos.
E quais são as principais preocupações de todos?
São as preocupações orçamentais. E depois, claro,
cada um tem questões particulares.
Mas o que mais os preocupa?
O subfinanciamento, porque tem reflexos em
todos. É dramático. É o grande problema da
saúde pública em Portugal. Sem ovos não se
fazem omeletes, sem financiamento não se con-
tratam pessoas.
Não podemos esperar que o SNS cumpra – por-
que não cumpre neste momento – a sua defini-
ção constitucional porque não há financiamento
suficiente.
Tem dito que esse subfinanciamento afeta a
qualidade.
Sim, sim. Olhe o exemplo doHospital de Beja que
não tem ressonância. A única TAC do hospital está
constantemente avariada e não conseguem fazer
mamografias nem ecografias mamárias porque
os aparelhos que têm são de tecnologia tão ve-
lhinha que não fornecem imagens de qualidade
É claramente um problema de financiamento.
Há cada vez mais médicos no sector privado?
Há um aumento. Ainda há mais no SNS, por-
que a prestação é ainda dois terços pública e um
terço privada.
As Ordens podem controlar o cumprimento
de regras no privado?
Este Ministério da Saúde está disponível para
permitir que as Ordens passem a ter uma base
legislativa e passem a poder fazer auditorias a
instituições públicas, mas também a privadas, e
sociais. Nós, por exemplo, impomos regras quanto
à constituição de equipas e obrigamos a que sejam
cumpridas no sector público, mas não sabemos se
“AGORA HÁ PREOCUPAÇÃO COM AQUILO
QUE SEJA RESOLÚVEL CONSENSUALMENTE.
O PARADIGMA DESTA POSTURA É A LEI
DOS ATOS EM SAÚDE”
JORGE ALVES