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Tema de capa
REVISTA DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS
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«COMO NÃO SE CONSEGUIA DAR UMA CÁPSULA
A UM BEBÉ, PEGÁMOS NA MATÉRIA-PRIMA,
ESTUDÁMOS FORMULAÇÕES E CRIÁMOS UMA
SOLUÇÃO PRÓPRIA»
manipular com segurança citotóxicos (forma
uma barreira de ar em frente ao operador para
o proteger do produto, caso se liberte um ae-
rossol). «Uma das maiores complicações da
quimioterapia é a neutropenia febril, que resulta
de uma debilidade do sistema imunitário, o que
pode facilitar infeções. Ora, se administramos
um medicamento contaminado, isso pode ser
fatal», sublinha Melo Gouveia.
Mais uma vez, o momento prévio de validar
a prescrição é essencial. Sandra, que ainda
não é especialista mas já passou por várias
secções da farmácia, revela à-vontade nesta
área: valida, uma a uma, todas as prescrições
que uma colega já verificara antes, numa sala
fora da unidade. «Fazemos novamente todos
os cálculos, confirmamos as doses e acondi-
cionamos as substâncias», explica a jovem
farmacêutica, colocando os ‘condimentos’ no
tabuleiro de cada doente, que é enviado atra-
vés de um transfer para a sala contígua, onde
se produz o medicamento final, destinado aos
doentes internados e em hospital de dia. Num
tom que parece de brincadeira, Melo Gouveia
insiste neste ponto (dupla verificação): «Sabe
quantas vezes os pilotos verificam tudo antes
do avião levantar? Por isso é que os acidentes de
aviação são raros. Os erros commedicamentos
também, mas de uma forma mais silenciosa».
Aos doentes dá-se ainda quimioterapia conven-
cional, imunoterapia e também os chamados
medicamentos alvo, mais caros mas não tão
tóxicos, alguns «milagrosos», indicados para
certos tipos de leucemia, por exemplo. «Tenho
um que custa 400 euros, uma unidade por dia.
O padrão dos medicamentos inovadores ron-
da 100 a 150 euros por unidade ou conjunto
diário», exemplifica o especialista. Há ainda
os comprimidos para náuseas, inflamações
da boca e mucosas, e outras formulações não
estéreis produzidas pelos próprios farmacêu-
ticos. Foi o caso de uma solução oral para
bebés de um medicamento imunossupressor
(tacrolimus), usado em transplantes. «Como
não se conseguia dar uma cápsula a um bebé,
pegámos na matéria-prima, estudámos formu-
lações e criámos uma solução própria», conta
Melo Gouveia.
COMPRAR E GERIR
STOCKS DE MILHÕES
O que comprar, e em que quantidades, é tam-
bém decisão dos farmacêuticos. Enquanto
diretor do serviço, Melo Gouveia está pesso-
almente envolvido no processo de aquisições.
«Hoje, tenho ali aquele dossiê grande para
tratar», comenta. Com base na política do
medicamento definida na Comissão de Far-
mácia Terapêutica, cabe-lhe fazer as melhores
opções, atendendo ao custo-benefício – entre
vários fármacos com as características preten-
didas, deve escolher-se o mais barato. Mas há
outros critérios: «Se houver um quase pronto
a usar e outro que exige muitas operações, pre-
firo o primeiro, não pelo preço. É que quanto
mais manipulações, maior o risco de erros ou
contaminações do produto. Se tiver muitas
ampolinhas, o operador vai picar mais vezes
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