ROF n.º117 Out/Dez 2015 - page 88

projecto do genoma humano e está a sê­‑lo agora em re‑
lação à investigação na área do “gene editing” que abre
novas vias terapêuticas que parecem exigir extraordiná‑
ria prudência. Do ponto de vista dos cuidados de saúde,
o que me preocupa mais é como poderemos ser fiéis ao
princípio da justiça de uma forma que garanta acessibili‑
dade e equidade, mas que também possa iluminar com
equilibrada sabedoria a distribuição de recursos que
serão inevitavelmente finitos, num tempo de imparável
progresso tecnológico.
ROF
: Existe uma oposição entre a Investigação Cientí‑
fica e a Ética? Como podem ser geridas as potenciais
áreas de confronto?
nidade e o desafio constante do progresso científico
e tecnológico e as “pestes” que inesperadamente nos
surpreendem exigem o desaparecimento de barreiras
corporativas e o entendimento de que nos cuidados de
saúde, na sua dimensão total, todos os profissionais e,
cada vez mais os cidadãos, têm um papel a desempe‑
nhar sem preconceitos.
ROF
: Concorda que é essencial uma reforma do
modelo de organização e funcionamento do siste‑
ma de saúde, em que, de forma mais efectiva, seja
promovida a saúde e prevenida a doença e em que
a integração na prestação dos cuidados seja uma
realidade?
JLA:
Não pode haver confronto. Pelo contrário, são alia‑
dos indispensáveis. Eu não sou dos que pensam que a
ciência é moralmente neutra e que a valoração moral se
aplica apenas aos produtos do conhecimento e, neces‑
sariamente, às tecnologias. Eu gosto de pensar que a
boa ciência gera boa ética, mas sei que este ponto de
vista merece a contestação de muitos.
ROF
: O CNECV, que já vai no seu 5º mandato e acaba
de comemorar 25 anos, inclui, pela primeira vez, um
membro designado pela Ordem dos Farmacêuticos,
na sequência de uma alteração legislativa votada una‑
nimemente pela Assembleia da Republica. Também
concorda que a ausência de uma “visão farmacêutica”
no CNECV constituía uma lacuna?
JLA:
Eu considero indispensável a participação de um
representante de uma classe profissional cuja contri‑
buição para a saúde dos cidadãos é cada vez mais ex‑
pressiva.
ROF
: Que visão tem do papel do farmacêutico no sis‑
tema de saúde?
JLA:
Tenho uma visão aberta, interdisciplinar e trans‑
disciplinar de todas as profissões de saúde, e não con‑
sidero razoável atribuir à medicina qualquer posição
hegemónica pois cada uma tem o seu campo de acção
específico, que deve ser respeitado. Creio que a moder‑
JLA:
Claro que sim, e creio que a plataforma lançada
pela Fundação Calouste Gulbenkian no seu relatório
“Um Futuro para a Saúde” elaborado em 2014 por
uma Comissão a que tive a honra de pertencer, presi‑
dida por Lord Nigel Crisp, responde às principais ques‑
tões sobre esta matéria.
ROF
: A distribuição homogénea no território nacional
das mais de 2900 farmácias, onde exercem cerca de
9 mil farmacêuticos, proporciona uma cobertura que
é ímpar entre todos os prestadores de saúde, sejam
públicos ou privados. Concorda que o País deve apos‑
tar e investir no reforço das competências legais dos
farmacêuticos e no alargamento da sua intervenção,
de modo a que o sistema de saúde e os portugueses
possam usufruir do seu potencial técnico­‑científico e
da sua proximidade com a população?
JLA:
Com toda a franqueza não conheço os contornos
legais das competências dos farmacêuticos, mas não
perco a oportunidade de analisar a intervenção do/a
farmacêutico/a quando numa farmácia espero a oca‑
sião de ser atendido e não tenho dúvida de que são
nossos (dos médicos) parceiros inseparáveis, como o
são, naturalmente, os profissionais de enfermagem e
toda a sorte de técnicos empenhados na prevenção,
no tratamento, na recuperação, enfim na garantia do
bem essencial que é a saúde.
"Creio que a modernidade e o desafio constante do progresso científico e
tecnológico e as ´pestes´ que inesperadamente nos surpreendem exigem
o desaparecimento de barreiras corporativas e o entendimento de que nos
cuidados de saúde, na sua dimensão total, todos os profissionais e, cada
vez mais os cidadãos, têm um papel a desempenhar sem preconceitos"
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