ROF n.º117 Out/Dez 2015 - page 42

Revista da Ordem dos Farmacêuticos (ROF)
: Que sig‑
nificado atribuiu a esta distinção da Ordem dos Far‑
macêuticos (OF)?
José Guimarães Morais (JGM):
Claro que fico muito sa‑
tisfeito pelo reconhecimento do trabalho que desenvol‑
vi ao longo da minha vida. É, aliás, a segunda vez que a
OF o faz, porque já tinha recebido a Medalha de Honra
em 2010.
Como já disse, esta questão das medalhas acaba por
ter um efeito cumulativo. Mas esta distinção tem um
significado muito especial que me enche de orgulho
por ser dada pela mais alta representação da profis‑
são farmacêutica e não meramente académica. Ape‑
nas dois factos relevantes: ser dada na mesma oca‑
sião ao Dr. João Cordeiro, cujo contributo para o de‑
senvolvimento da profissão é inquestionável e porque
estas duas medalhas de ouro são a quarta e quinta
que a OF atribui, o que, dada a raridade, evidencia o
seu carácter excepcional.
ROF
: Sente que o seu percurso profissional foi de al‑
gum modo importante para o prestígio, para a digni‑
ficação e para o desenvolvimento da profissão farma‑
cêutica?
JGM:
É muito difícil fazer uma apreciação objectiva nos
termos em que a pergunta é feita. Se a OF reconhece,
eu tenho que acreditar que assim é.
Ser farmacêutico e professor de Farmácia foram coisas
que se infiltraram relativamente tarde na minha vida.
Apesar de ter nascido numa farmácia (e a farmácia ain‑
da era uma coisa aliciante para um adolescente – até
construi um laboratório de química), a minha vocação
era mesmo a química e andei pelas engenharias até
que aportei em Farmácia. Não estava muito distante,
apesar de tudo. Aí adquiri o gosto pelo trabalho de la‑
boratório e pela investigação. Por isso, mais tarde, sem
planeamento prévio (não acredito em vidas e carreiras
planeadas) aconteceu vir a ser professor de Farmácia,
como também aconteceu andar pela Europa, na senda
do medicamento, e ser director da Faculdade de Far‑
mácia da Universidade de Lisboa (FFUL). Tudo o que
aconteceu resultou de me empenhar naquilo em que
me envolvi.
No meu ponto de vista, apenas fiz aquilo que estava
ao meu alcance para dar mais sentido farmacêutico ao
ensino que se praticava na minha faculdade ao longo de
mais de 30 anos de carreira.
Quando a iniciei no princípio dos anos 80, os sectores
mais ligados à farmácia propriamente dita tinham fra‑
ca expressão: a Tecnologia só tinha um doutorado, a
Socio­‑Farmácia era incipiente e a Farmacologia dava
os primeiros passos. Hoje, estes três departamentos
têm pessoal, projectos, ensino e instalações, mas não
deixam de ser minoritários, pese embora a sua rele‑
vância e especificidade no contexto da Faculdade de
Farmácia.
Se a evolução do ensino que se operou nos últimos 20
anos contribuiu para afirmar a profissão farmacêutica,
então provavelmente eu terei tido algum contributo
porque estive 17 anos à frente dos destinos da FFUL.
ROF
: Que comentário lhe merece a evolução de que a
profissão tem sido alvo nos últimos anos?
JGM:
Nos últimos anos, na minha perspectiva, acentuou­
‑se a assunção de que a actividade da farmácia de ofici‑
na (comunitária) é cada vez mais a actividade principal e
fulcral do farmacêutico. Para além da actividade tradicio‑
nal e dos chamados cuidados farmacêuticos ou segui‑
mento terapêutico, a consagração em lei dos serviços
farmacêuticos atribuídos à farmácia veio dar um grande
impulso à profissão, conferindo­‑lhe um maior grau de
auto­‑estima, pese embora alguma dificuldade em levar
à prática toda esta gama de actividades.
Por outro lado, a política de preços aplicada aos me‑
dicamentos veio atirar uma actividade já de si com al‑
guma precariedade económica para o nível da sobrevi‑
vência. Não tenho números seguros, mas o que ouço
dos colegas é: ordenados baixíssimos, nível de remu‑
neração do investimento ao nível da linha de água, fa‑
lências económicas em número muito significativo, etc.
Ora não é possível que uma actividade com a impor‑
tância social como a da farmácia não goze de algum
desafogo económico para poder ser exercida sem uma
pressão financeira constante. Não sobra tempo para o
desenvolvimento de projectos como o dos serviços far‑
macêuticos ou do atendimento informado. Receio que,
se esta pressão não for aliviada, caiamos para níveis de
qualidade que hoje já não são admissíveis.
Na Indústria, a escassez de unidades fabris faz com que
a procura seja superior à oferta de emprego, o que tam‑
bém não é bom para a qualidade dos profissionais sem
um mínimo de estímulo para o exercício que se quer de
excelência.
A actividade regulamentar, quer na Indústria, quer nas
autoridades de regulação, revelou­‑se uma saída profis‑
sional que reúne um razoável nível remuneratório e de
desempenho.
No caso das análises clínicas (que eu mal conheço) a
percepção que tenho é a de redução do número de uni‑
dades activas com elevada concentração de recursos e
consequente fraca oferta de emprego.
A Farmácia Hospitalar continua sendo uma actividade
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