Boletim CIM
Fazer
Evitar
Ir para a cama só quando tiver sono
Atividades stressantes antes
de se deitar
Levantar-se todos os dias à mesma hora,
incluindo aos fins de semana
Refeições abundantes antes
de se deitar
Manter condições ambientais de luz, som e
temperatura adequadas ao sono
Sestas durante o dia
Praticar exercícios de relaxamento antes de
se deitar
Ou reduzir o consumo de
álcool, hipnóticos ou cafeína
Praticar exercício físico moderado no final da
tarde
Ficar na cama depois de des-
pertar de manhã
Tomar um banho relaxante antes de se deitar
TABELA 2. MEDIDAS DE HIGIENE DO SONO.
Adaptado das referências 2 e 17
Etapa 1. Reavaliar o tratamento com BZD
, aferindo sobre a
manutenção da necessidade e resultados clínicos (efetividade e
segurança) obtidos.
Etapa 2. Avaliar a existência e o nível de dependência
, que de-
pende da BZD (dose, semivida média e potência), da duração do
consumo e do próprio doente. Em função do grau de dependên-
cia, seleciona-se a pauta de redução da dose de BZD a utilizar.
A dose total diária deverá ser reduzida em 10%-25%, a cada 2-3
semanas, até à suspensão total. Poderá ser útil a substituição
temporária da BZD de semivida curta por uma BZD de semivida
longa (ex. diazepam), em doses equivalentes, diminuindo-se a fre-
quência e gravidade das síndromas de privação.
Etapa 3. Preparar o doente para a cessação da BZD,
informando-
-o que os benefícios da medicação são limitados no tempo e que o
prolongar do tratamento diminui a eficácia (tolerância) e aumenta
os riscos (dependência, privação, quedas e alterações na memória);
entregar-lhe a pauta com o descalonamento selecionado.
Etapa 4. Avaliar clinicamente os resultados da interrupção
da BZD
, com visitas de seguimento a cada 2-4 semanas. Se a
sintomatologia se mantiver ausente, a descontinuação foi bem-
-sucedida; se aparecerem sintomas de abstinência, atrasa-se por
algumas semanas a redução de dose seguinte; se houver um re-
torno da sintomatologia, recomenda-se a utilização intermitente
ou em SOS da BZD.
CONCLUSÃO
Os ansiolíticos, sedativos e hipnóticos permanecem como o gru-
po de psicofármacos mais prescritos em Portugal, sendo as BZD
e medicamentos relacionados o subgrupo com maior expressão.
Dada a sua toxicidade psicomotora e a indução de fenómenos de
tolerância e dependência, devem desenvolver-se estratégias que
previnam a sua sobreutilização e fomentem a sua desprescrição.
Independentemente da estratégia selecionada para a desconti-
nuação da terapêutica com BZD, é importante envolver o doente,
informando-o sobre os objetivos, perfil de segurança e limitações
temporais desta medicação.
Nadine Ribeiro*, António Faria Vaz**
* Farmacêutica, Comissão de Farmácia e Terapêutica da ARSLVT
** Médico, Presidente da Comissão de Farmácia e Terapêutica da ARSLVT
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•
Caso não haja remissão de sintomas, adiciona-se a BZD por
períodos curtos e nas doses mínimas efetivas;
•
Os doentes devem ser informados dos objetivos terapêuticos,
duração do tratamento e dos efeitos secundários mais graves;
•
Quando alcançada a remissão da sintomatologia clínica deve
dar-se início à descontinuação da BZD;
•
Reavaliação periódica da situação clínica (mensal, se a BZD for
sedativa, trimestral, se for ansiolítica), com o objetivo de deter-
minar a necessidade da continuação do tratamento;
•
A descontinuação deve ser lenta e progressiva, evitando-se a
síndroma de privação.
São consideradas situações de potencial
prescrição clinicamente
não indicada de BZD
as seguintes
:
5
•
Tratamento sintomático da ansiedade ou insónias ligeiras a
moderadas;
•
Utilização de mais do que uma BZD ansiolítica ou hipnótica no
tratamento da ansiedade ou insónia, respetivamente;
•
Utilização em indivíduos com histórico de abuso de substâncias;
•
Utilização por períodos superiores a 8-12 semanas (ansieda-
de) e superiores a 4 semanas (insónia), incluindo o período de
descontinuação. O prolongamento deste período deverá ser
excecional, com reavaliação em consulta especializada. O
The
National Institute for Health and Care Excellence
(NICE) é mais
restritivo, recomendando apenas uma duração de tratamento
(insónia e ansiedade) de 2-4 semanas, incluindo o período de
descontinuação.
13
•
Tratamento da ansiedade manifestada numa perturbação de
ansiedade –
o tratamento preferencial
é com
antidepressivos
.
O alprazolam constitui uma exceção, tendo indicação no trata-
mento a curto prazo da perturbação de pânico.
Em regra, os estudos demonstram uma baixa adesão às orienta-
ções clínicas, quer no que concerne a descontinuação gradual, quer
na necessidade de reavaliação do tratamento com BZD.
2,3,14-16
DESCONTINUAÇÃO DE BENZODIAZEPINAS
Várias estratégias de descontinuação de BZD têm sido
sugeridas e testadas, na busca das mais eficazes e eficientes.
As experiências ditas de
intervenção mínima
–
na qual depois
de se identificarem os consumidores crónicos de BZD, é-lhes
enviada uma carta com informação incidindo nos efeitos adver-
sos a longo prazo e explicando como realizar de forma segura
e eficaz a suspensão gradual da sua BZD –, apresentam uma
taxa de sucesso entre 18%-22%.
2,14-17
As
intervenções estrutu-
radas
envolvem consultas com o médico, onde se discute com
o doente os benefícios da suspensão gradual da medicação, e
apresentam resultados bastante variáveis (24%-62%), depen-
dentes das diferenças na complexidade da intervenção sele-
cionada.
3,11,14
As estratégias anteriores poderão ser reforçadas
com fármacos de apoio ou técnicas cognitivo-comportamentais
– medidas geralmente reservadas para casos muito complexos
de dependência, dado o limitado benefício que aportam face à
complexidade que integram.
2,14,15
Independentemente da técnica selecionada, para que a suspen-
são da terapêutica com BZD tenha uma boa adesão, é importan-
te que seja realizada através de uma
abordagem de desconti-
nuação gradual
.
11,14-17
BOLETIM DO CIM
- Publicação trimestral de distribuição gratuita da Ordem dos Farmacêuticos
Director:
Carlos Maurício Barbosa
Conselho Editorial
: Aurora
Simón (editora); Clementina Varelas; Francisco Batel Marques; J. A. Aranda da Silva; M.ª Eugénia Araújo Pereira; Paula Iglésias; Rodrigo Campos; Rui Pinto;
Sérgio Simões; Teresa Soares. Os artigos assinados são da responsabilidade dos respectivos autores.