ROF n.º117 Out/Dez 2015 - page 145

Boletim CIM
INTRODUÇÃO
Desde o aparecimento do clorodiazepóxido, o primeiro fárma-
co do grupo das benzodiazepinas (BZD) comercializado, muitas
outras moléculas de características semelhantes foram sendo
adicionadas ao armamentário terapêutico moderno. Estes medi-
camentos, que atuam como ansiolíticos, sedativos e hipnóticos,
rapidamente se tornaram no tratamento de referência para os
problemas de ansiedade e insónia – em oposição às terapêuticas
utilizadas anteriormente, os barbitúricos –, sendo um dos grupos
farmacológicos mais prescritos na atualidade.
1-3
De acordo com um estudo do INFARMED, entre 2000 e 2012
assistiu-se emPortugal a um aumento do consumo de psicofárma-
cos, incluindo os ansiolíticos, sedativos e hipnóticos. Este continua
a ser o subgrupo commaior utilização, com 96 DHD
1
, sendo o con-
sumo nacional muito superior ao de outros países europeus, como
a Itália (53 DHD), a Noruega (62 DHD) e a Dinamarca (31 DHD).
4
Na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo
(ARSLVT), o consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos é
igualmente elevado, correspondendo em 2014 a 70,8 DHD (em
2012 era de 64,8). A sua faturação em 2014 rondou os 33 mi-
lhões de euros em PVP
2
e os 7,6 milhões de embalagens. Este
UTILIZAÇÃO DE BENZODIAZEPINAS: ESTRATÉGIAS
PARA O SEU USO RACIONAL
consumo aumentou, nos últimos 3 anos (2012 a 2014), 8% em
volume e 15% em valor. As DCI mais prescritas em DHD foram o
alprazolam (28,1%), o lorazepam (15,9%) e o diazepam (12,7%).
ALGUNS ASPETOS FARMACOLÓGICOS
As BZD atuam potenciando a ação inibitória do ácido gama-
-aminobutírico (GABA) na neurotransmissão. Apesar de se uti-
lizarem principalmente no tratamento da insónia e da ansieda-
de, algumas são também eficazes na perturbação de pânico,
como anticonvulsivantes e relaxantes musculares, no tratamen-
to da desintoxicação alcoólica e na síndroma de abstinência a
opioides.
1-3,5
A maioria das BZD é metabolizada a nível hepático, via citocromo
P450 (oxidação) ou por conjugação. A última via é preferível no
doente idoso, dado ser menos afetada por alterações relaciona-
das com o envelhecimento que possam conduzir a maior toxici-
dade.
1,2
As BZD diferem quanto ao tempo de semivida. As BZD de semi-
vida curta são úteis como hipnóticas, evitando o efeito de seda-
ção diurna comum às de semivida mais longa que apresentam
vantagens na ansiedade generalizada (Tabela 1).
TABELA 1. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS FARMACOLÓGICAS DAS BENZODIAZEPINAS.
Adaptado das referências 2 e 5
DCI
INDICAÇÃO
METABOLISMO
DCI
INDICAÇÃO
METABOLISMO
Ação curta (<6 horas)
Ação longa (>24 horas)
Brotizolam
hipnótico
Oxidação
Flurazepam
hipnótico
Oxidação
Midazolam
hipnótico
Oxidação
Clorazepato dipotássico
ansiolítico
Oxidação
Triazolam
hipnótico
Oxidação
Clorodiazepóxido
ansiolítico
Oxidação
Ação Intermédia (6-24 horas)
Diazepam
ansiolítico
Oxidação
Loprazolam
hipnótico
Conjugação
Halazepam
ansiolítico
Oxidação
Oxazepam
ansiolítico
Conjugação
Cetazolam
ansiolítico
Oxidação
Alprazolam
ansiolítico
Oxidação
Clobazam
ansiolítico
Oxidação
Bromazepam
ansiolítico
Oxidação
Cloxazolam
ansiolítico
Conjugação
Lorazepam
ansiolítico/hipnótico Conjugação
Mexazolam
ansiolítico
Oxidação
Estazolam
hipnótico
Oxidação
Loflazepato de etilo
ansiolítico
Conjugação
Temazepam
hipnótico
Conjugação
Prazepam
ansiolítico
Conjugação
PERFIL DE SEGURANÇA
De entre os efeitos secundários das BZD, os efeitos no cérebro e
no comportamento são os mais temidos, podendo causar seda-
ção e alterações psicomotoras, que originam quedas, fraturas ós-
seas e acidentes de viação.
1,6,7
São responsáveis pelo surgimento
de reações paradoxais, com irritabilidade, agitação e sintomatolo-
gia psicótica.
1,3,5
Especialmente importante é a deterioração cog-
nitiva que originam, com o aparecimento de amnésia anterógra-
da, diminuição da vigilidade e confusão mental, potencialmente
confundidas com a instalação de demência nos idosos.
1,6,8
Os idosos são mais suscetíveis aos efeitos adversos das BZD,
sendo estes fármacos desaconselhados pela Sociedade Ameri-
cana de Geriatria como primeira opção no tratamento da insónia,
agitação ou delírio.
9
A utilização de BZD está ainda relacionada com sintomas de pri-
vação e ansiedade “rebound”, tolerância e dependência.
1,5
Um
estudo observacional recente relaciona-as com um aumento da
mortalidade.
10
As reações adversas a BZD são tanto mais frequentes quanto
maior for a semivida do fármaco utilizado (principalmente se
> 24 horas) e diretamente proporcionais às doses e duração do
tratamento.
1,3
A utilização concomitante de outras substâncias
psicoativas, como o álcool, potencia a gravidade e extensão
destes efeitos.
2,5,6
As BZD de semivida mais curta (< 8 horas)
apresentam um maior potencial de adição.
2,3
SOBREUTILIZAÇÃO DE BENZODIAZEPINAS
Apesar de percecionadas como muito eficazes e bem toleradas,
os efeitos secundários que originam e a tolerância e dependência
que causam tornam o elevado consumo de BZD um grave proble-
ma de saúde pública.
1,5,11
Considera-se que a sua prescrição é ex-
cessiva, face às indicações clínicas aprovadas, e que a sua utiliza-
ção é demasiadas vezes prolongada por períodos superiores aos
indicados.
1-4
Inúmeros organismos por todo mundo têm lançado
campanhas direcionadas a minorar a sua utilização inadequada e,
por conseguinte, os seus efeitos deletérios.
5,11-13
Em Portugal, a DGS publicou em 2011 a Norma “Abordagem Te-
rapêutica da Ansiedade e Insónia”, onde se procura promover o
uso racional destes fármacos.
5
ESTRATÉGIAS PARA O USO RACIONAL DE
BENZODIAZEPINAS
A melhor estratégia para a redução das complicações associa-
das às BZD é preventiva, evitando a sua prescrição inadequada,
através da seleção criteriosa dos doentes que delas beneficiam
e do cumprimento escrupuloso dos esquemas terapêuticos apro-
vados.
11
A boa prática clínica recomenda que sejam observados os seguin-
tes princípios na prescrição de BZD:
5
Adoção de medidas não farmacológicas (terapia cognitiva-
-comportamental, modificação de estilos de vida e medidas
higiénicas do sono) prévias ao início da terapêutica com BZD
(Tabela 2);
1DHDéadosediáriadefinida (DDD)por1000habitantespordia.Correspondeàproporçãodapo-
pulaçãoquediariamenterecebetratamentocomumdadomedicamentonumadadadosemédia.
4
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