ROF n.º117 Out/Dez 2015 - page 137

Até a data, os nossos estudos préclínicos demonstaram
que esta estratégia é realmente potente, levando à mor‑
te de aproximadamente 90 por cento do tumor, sem
afectar os tecidos adjacentes. Estamos ainda a investi‑
gar o efeito desta terapia a longo prazo, tendo já obser‑
vado a regressão de alguns tumores. Os resultados são
realmente promissores.
ROF
: Quais os principais benefícios desta nova estra‑
tégia no tratamento dos doentes oncológicos?
SO:
Quando tivermos dado provas suficientes em como
esta estratégia é válida e superior à forma como esta
terapia é hoje em dia aplicada, e tiver sido demonstra‑
do em ensaios clínicos que é eficaz (ainda temos muito
trabalho pela frente até chegar aos doentes), acredito
que poderá, eventualmente, passar a ser das primeiras
opções de tratamento para casos específicos de tumo‑
res localizados, de dificil acesso e com grandes riscos de
cirurgias não radicais. Poderá eventualmente vir a ser
aplicada como terapia complementar, no contexto da
cirurgia, para assegurar a remoção completa do tumor.
Esta forma de terapia fotodinâmica poderá trazer a es‑
pecificidade que outros tratamentos de primeira opção
para tumores localizados (como a cirurgia ou a radiote‑
rapia) não possuem, reduzindo os riscos de danos nos
tecidos normais adjacentes ao tumor. Por vezes, depen‑
dendo da localização do tumor, a falta de especificidade
pode comprometer funções vitais, como são a degluti‑
ção ou a fala em casos de tumores na cabeça e pescoço.
ROF
: Em que fase se encontra a investigação e quan‑
do se poderá estimar a sua aplicação clínica?
SO:
Actualmente, estamos a executar estudos préclí‑
nicos num segundo modelo tumoral, que nos permite
acompanhar o tumor por mais tempo e determinar se há
regressão completa ou se o tumor volta. Ainda é cedo
para tirar conclusões finais, mas já obtivemos resulta‑
dos positivos. Nos próximos meses iremos investigar o
mecanismo com mais detalhe, o que tambem é impor‑
tante para percebermos onde poderemos melhorar ain‑
da mais a estratégia. É fundamental fazer­‑se mais inves‑
tigação préclínica, em modelos de tumores diferentes, e
sobretudo provar que a estratégia funciona em tumores
espontâneos e que se desenvolve em animais de mais
largas dimensões que os ratinhos de laboratório.
É dificil dizer para quando será a primeira investigação
desta estratégia em humanos... Gostaria imenso de di‑
zer "dentro de 5­‑7 anos"... mas o caminho ainda é real‑
mente longo para poder prever tal cenário.
ROF
: De que forma esta bolsa do ERC pode constituir
um impulso e acelerar a conclusão deste trabalho?
SO:
A bolsa vai permitir alargar a aquipa e investigar ou‑
tras vertentes desta nova forma de terapia fotodinâmica.
Gostaria, sobretudo, de salientar dois aspectos: a tera‑
pia fotodinâmica é descrita como local, pela activação
por meio do feixe de luz, podendo também ter uma ac‑
ção sistêmica pelo estímulo do sistema imunitário. Esta
vertente não é ainda bem entendida, e ainda não foram
feitos estudos neste âmbito usando esta nova forma de
terapia mais especifica. No entanto, é de todo o inte‑
resse explorar esta faceta, uma vez que se poderia criar
uma forma de protecção contra a re­‑ocorrência do can‑
cro, que seria certamente uma mais­‑valia.
Por outro lado, pretendo também avaliar este novo tra‑
tamento na clinica veterinária, que, como passo intermé‑
dio, poderá fortalecer e acelerar os estudos em huma‑
nos. Para isso, iremos avaliar este novo tratamento em
cães que dão entrada na clínica veterinária com cancros
que por vezes não têm qualquer opção terapêutica.
Tratando­‑se de cancros que se desenvolvem de forma
espontânea em animais de largas dimensões, podere‑
mos aprender muito quanto ao potencial deste novo tra‑
tamento em humanos.
ROF
: Como surgiu a oportunidade de trabalhar nesta
área e de desenvolver este projecto na Holanda?
SO:
Em Abril de 2012, obtive um financiamento holan‑
dês (VENI STW­‑NWO), que me permitiu iniciar esta minha
linha de investigação. A ideia surgiu no meu período de
postdoc
e permitiu­‑me conciliar os meus interesses em
áreas como a detecção do cancro (tema do meu trabalho
de
postdoc
) e o desenvolvimento de terapias direcciona‑
das para o cancro (tema do meu doutoramento).
Foi em 2004 que vim pela primeira vez para a Holanda,
ainda antes de terminar a minha licenciatura. Com uma
bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e
Tecnologia, pude aprender muito na area de "
drug deli‑
very and drug targeting"
no Departamento de Ciencias
Famaceuticas da Universidade de Utrecht. Logo depois,
fiz um
postdoc
no departamento de Biologia, onde
me dediquei ao desenvolvimento de
nanobodies
para
a detecção do cancro por imagem óptica. Depois, com
o financimanto holandês, pude conciliar estas áreas e
iniciar este trabalho.
ROF
: De que forma a sua formação superior em Ciên‑
cias Farmacêuticas foi importante no desenvolvimen‑
to deste projecto?
SO:
Foi sem dúvida um factor essencial para chegar aqui.
Não só porque foi no último ano da minha licenciatura
que surgiu a oportunidade de vir até à Universidade de
Utrecht fazer um estágio de investigação por um período
de seis meses, mas tambem porque o meu interesse pe‑
las áreas já referidas tem por base o meu percurso como
estudante de Ciências Farmacêuticas.
Esta área foi a minha primeira escolha como formação
superior e continua a fascinar­‑me após estes anos.
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