ROF n.º117 Out/Dez 2015 - page 136

A farmacêutica portuguesa Sabrina Oliveira, investiga‑
dora da Universidade de Utrecht, na Holanda, recebeu
uma bolsa do European Research Council, no valor de
1,5 milhões de euros, para uma investigação que visa
o desenvolvimento de uma nova forma de terapia foto‑
dinâmica, utilizada no tratamento do cancro, que pode
induzir uma protecção a longo prazo através da activa‑
ção do sistema imunitário.
Sabrina Oliveira tem vindo a desenvolver uma nova es‑
tratégia para terapia fotodinâmica, utilizando um nano‑
corpo acoplado ao fármaco fotossensibilizador, que se
instala nos tumores em cerca de uma ou duas horas,
Investigação abre novas perspectivas no tratamento do cancro
Farmacêutica portuguesa recebe bolsa para
desenvolver nova forma de terapia fotodinâmica
permitindo a sua activação quase imediata, através de
laser. Além disso, ao contrário dos fotossensibilizantes
utilizados actualmente, este nanocorpo não é hidrofóbi‑
co, pelo que não se instala aleatoriamente em qualquer
célula que encontre.
Estudos
in vitro
e
in vivo
têm demonstrado que esta
combinação se instala rápida e especificamente nas
células cancerígenas e se distribui homogeneamente
pelo tumor, proporcionando danos em cerca de 90 por
cento. Adicionalmente, tem como vantagem a possibi‑
lidade de ser rastreada no corpo, ajudando a orientar a
aplicação de terapia fotodinâmica.
SABRINA OLIVEIRA
investigadora
na Universidade de Utrecht
Revista da Ordem dos Farmacêuticos (ROF)
: Explique­
‑nos resumidamente o trabalho que tem vindo a de‑
senvolver na área da terapia fotodinâmica.
Sabrina Oliveira (SO):
O maior problema da terapia fo‑
todinâmica advém da hidrofobicidade dos fotosensibili‑
zadores que interagem com todo o tipo de células, sem
qualquer especificidade para as cancerígenas. Apesar de
esta terapia ter uma componente de localização, através
da activação local do fotosensibilizador por meio da apli‑
cação de uma luz de alta intensidade, ainda são repor‑
tados danos nos tecidos normais adjacentes ao tumor.
Tenho vindo a trabalhar, desde 2012, no sentido de tor‑
nar específica a associação do fotosensibilizador com as
células cancerígenas. Para esse efeito, utilizo um foto‑
sensibilizador que é mais hidrofílico que os convencionais
e uso
nanobodies
, que nao são mais que fragmentos
muito pequenos de anticorpos de cadeias pesadas, que
existem por exemplo em animais da familia
camelidae
.
Os
nanobodies
podem ser desenvolvidos para se liga‑
rem exclusivamente a proteínas presentes em tumo‑
res, ou a proteinas que se encontram sobre­‑expressas
em tumores. Como estes n
anobodies
são mais peque‑
nos que os anticorpos convencionais, distribuem­‑se
mais rapidamente após administração intravenosa,
acumulando­‑se no tumor 1­‑2 horas após a adminis‑
tração. As suas dimensões também permitem que o
excesso que não se associou ao tumor seja eliminado
rapidamente, permitindo assim que a luz seja aplicada
também neste curto espaço de tempo, comparando
com os 2­‑4 dias quando se usam os anticorpos intei‑
ros para direccionar os fotosensibilizadores ou mesmo
a terapia tal como é hoje aplicada na clínica.
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